A melhor forma de se decepcionar


          Quem nunca criou expectativas sobre algo ou alguém? Criar expectativas é algo natural e inerente à nossa condição humana, inclusive não há nada de errado nisso. Apesar de toda essa naturalidade, sempre há um alerta em torno deste contexto, pois quando aquilo que se esperava não se concretiza, a frustração vem, muitas vezes de forma agressiva e arrebatadora. O que fazer para não ser engolido por esse sentimento nefasto? 

          Muitas pessoas nutrem o pensamento mágico de que tudo sempre vai dar certo, que a vida é um algodão doce rosa e que o universo está o tempo todo do seu lado, conspirando para atender a todos os seus desejos e vontades. É um erro crasso, afinal, a vida não é um conto de fadas e o fato de só desejar algo não significa nada. O desejo é só um pontapé inicial para a construção de um objetivo que, por sua vez, é repleto de etapas e variáveis. Nem sempre o objeto da nossa expectativa é alcançado, e na maioria das vezes realmente não é. 

          As expectativas surgem por não aceitar a possibilidade do “não”, do erro e do fracasso. Via de regra, quem muito deposita expectativas em algo ou alguém possui algum problema interno mal resolvido. O contraditório também faz parte da vida, por isso é importante ter uma boa relação com ele. É importante ter a consciência de que nessa existência teremos mais derrotas do que vitórias, e que a negação desse fato só atrapalha sua reconstrução em prol do “sim”. 

          Criar expectativas em torno de alguma pessoa é acreditar que ela sempre terá uma reação positiva a um fato da forma que esperamos. As expectativas te levam à ansiedade e, quando em demasia, te levam ao desespero. Desesperar-se é se sufocar, e essa asfixia causa vários outros males tão piores quanto. Cada pessoa é dotada de personalidade única, e como somos seres imprevisíveis, não é inteligente creditar uma certeza sobre a reação de um fato futuro a nosso semelhante. 

          Um antídoto poderoso que combate de maneira precisa a expectativa é o desapego (há um texto neste blog que trato especificamente desse tema). Desapegar-se é ter plena consciência de que nada na vida é permanente, sejam coisas, situações, sentimentos e principalmente pessoas. Ao contrário do que alguns acreditam, ser desapegado não é ser frio ou indiferente, mas sim ser maduro o suficiente para acreditar na única verdade absoluta: o fim. Tudo que começa um dia acaba, quer queiramos ou não. Quando algum ciclo se fecha é comum que algumas pessoas sofram mais do que deveriam, e esse sofrimento pode levar a várias doenças psicossomáticas que desencadeiam tantas outras que, em último estágio, pode levar o envolvido à morte. 

          Tendo em vista toda essa problemática, não faz o menor sentido criar expectativas acerca daquilo que foge do seu controle. A vida torna-se muito mais leve quando decidimos caminhar com nossas próprias pernas e aceitar as coisas como são, sem julgamentos, sem pressão e principalmente sem obrigar o teu semelhante a carregar um fardo que é de responsabilidade exclusivamente sua. 

Texto autoral de Maycon de Souza

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