As várias versões de si mesmo

 


Acredito que muitas pessoas em algum momento de suas vidas têm e tiveram a sensação de que dentro de si habita mais de um “Eu”, como se fossem seres de múltiplas personalidades. É como se em um dado momento houvesse um comportamento e uma convicção alinhada a uma perspectiva específica, dotada de uma confiança inabalável diante daquilo em que se acredita e, noutra situação, aparecesse um “Eu” com pensamentos e comportamentos totalmente distintos, aparentando ser outra pessoa. Acredite, isso é absolutamente normal e, ao contrário do que alguns podem pensar, não se trata de bipolaridade. Ser bipolar é sofrer de uma psicopatologia que caracteriza uma mudança repentina de humor, ora eufórico, ora depressivo, o que não se aplica à temática abordada nesse texto.

A ironia presente nessa situação é que muitas vezes o nosso Eu assume papéis antagônicos, capazes de mudar nossa perspectiva de vida sobre vários prismas, o que faz agregar valor às nossas atitudes e nos tornam pessoas mais resilientes e aptas a encarar as pancadas que inevitavelmente a vida nos dá de tempos em tempos. O problema é quando não conseguimos digerir o que esses “inquilinos” querem nos ensinar, o que acaba gerando um conflito interno muito difícil de administrar.

O filme Clube da Luta traz exatamente essa abordagem. O personagem principal passava por sérios problemas de insônia, além de ser bombardeado constantemente por crises existenciais que insistiam em persegui-lo. Com isso, o seu outro Eu aos poucos foi se manifestando até tirá-lo da condição deprimente em que vivia, no entanto, apesar de ter sido algo muito bom a priori, chegou um ponto em que as duas personalidades entraram em conflito, fazendo com que houvesse uma confusão mental difícil de ser controlada. Apesar de ter sido na ficção, também estamos sujeitos a ser acometidos por situação similar na vida real.

Ter autocontrole em alguma área da vida é algo complexo e difícil. Conseguir administrar todas é impossível, mas ainda assim é necessário buscar meios para não se deixar dominar pelos efeitos causados pelas diferentes versões do nosso Eu, principalmente da mais avassaladora delas: o Eu Sabotador.

Até hoje não conheci alguém que em algum momento de sua vida nunca se deixou levar pela autossabotagem. Essa é uma situação que se repete de tempos em tempos na vida de todos, uns com mais frequência do que com os outros. Autossabotar é ter atitudes (conscientes ou não) que te fazem cair do cavalo e perder algo que é importante. Muitas vezes nos damos conta de que estamos exercendo a autossabotagem antes mesmo de iniciar o ato, mas ainda assim o fazemos. Se determinadas atitudes nos cobram um alto preço como consequência, então por que insistimos em exercê-las? 

Essa é uma daquelas perguntas difíceis de se responder, pois é algo que foge da lógica e da racionalidade. Somos seres movidos pelo impulso, e este é um dos principais responsáveis por causar arrependimento. Pode ser paradoxal, mas o impulso também causa a inação, e ambos são tendenciosos quando o assunto é manter a zona de conforto que tanto nos cega e paralisa. A busca incessante por prazeres rápidos e temporários sempre lidera o ranking daquilo que a maioria das pessoas buscam, mesmo que inconscientemente. Muitas vezes, tais prazeres cobram um preço mais alto do que de fato valem, e muitos não hesitam em pagar o que foi solicitado, ainda que resulte em autossabotagem.

Quando o assunto refere-se a lidar e controlar as diversas personalidades do nosso ser, não há uma fórmula mágica, tampouco uma receita de bolo que nos mostre exatamente o que deve ser feito. O que deve ser observado e insistentemente praticado é o investimento no autoconhecimento. Quando olhamos para dentro de nós sem julgamentos, preconceitos, pressões e com o reconhecimento de que em nós reside tanto o bem quanto o mal, passamos a reconhecer nossas forças e fraquezas. Fazer isso é dar um pontapé inicial para que possamos tomar as rédeas do nosso destino e escolher sabiamente aquilo que é de fato relevante para nós. Nesse contexto, não devemos nos espelhar em ninguém, pois cada um possui um caminho diferente a trilhar, sem contar que dentro de cada um existe um universo particular diferente e personalizado, o que torna a busca de si mesmo algo íntimo e individual. Uma vez que você se encontrar, jamais vai querer se perder novamente.

Texto autoral de Maycon de Souza


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