Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço
Não é nenhuma novidade que o ser humano possui inúmeras características negativas que o tornam o maior sabotador de seus próprios planos e objetivos. “O homem é o lobo do homem”, já dizia o filósofo Thomas Hobbes. Apesar de essa frase ter sido dita há centenas de anos, ela nunca esteve tão atual. Se formos analisar a fundo os motivos das nossas maiores frustrações, constataremos que na maioria das vezes somos nós os culpados pelos nossos próprios insucessos. Um dos pilares que sustentam de maneira consistente essa autossabotagem é a dissonância cognitiva.
Quem nunca ouviu a frase: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”? Se há um dito popular que ilustra muito bem o significado de dissonância cognitiva, esse é o melhor. Em outras palavras, ela está atrelada ao fato de não haver coerência entre o que um indivíduo diz com o que ele faz. Aposto que você conhece pessoas que já agiram assim, inclusive, em algum momento você já deve ter tido essa postura. Ter esse comportamento em algumas situações atípicas é algo normal, o problema é quando ele se torna um traço na personalidade de alguém.
Por vezes, a pessoa que não vive aquilo que prega é considerada pelos que estão ao seu redor como hipócrita, falsa, incoerente e sem compromisso. É totalmente compreensível esse juízo de valor, principalmente quando aquele que o faz é uma vítima de uma promessa não cumprida de alguém. Muitos estudiosos do comportamento humano buscam uma resposta para o que é determinante para ocasionar esse tipo de comportamento. Nesse contexto, é possível se deparar com o seguinte questionamento: a dissonância cognitiva é uma falha de caráter ou uma patologia?
Pode-se compreender como falha de caráter uma característica de alguém que age de forma antiética e imoral, que além de não possuir escrúpulos, não respeita a individualidade do outro, uma vez que faz da libertinagem um comportamento comum e natural. Nesse cenário, o envolvido tem a plena consciência de seus atos. De modo distinto, quando a dissonância cognitiva é patológica, ela se manifesta como um comportamento vicioso, algo que vai além da arbitrariedade, uma vez que se tornou uma atitude inconsciente e compulsiva.
Independentemente de qual seja a modalidade de dissonância manifestada pelo indivíduo, uma coisa é fato: vivemos em uma cultura que valoriza aquele que cumpre o que promete. Não faço juízo de valor sob o olhar exclusivo da moral, uma vez que ela é temporal e varia conforme a cultura vigente, mas sim sob o ponto de vista ético, que além de ser atemporal, respeita a liberdade independentemente do contexto. Partindo dessa premissa, é razoável entender como antiético aquele que faz utilização da dissonância cognitiva em suas relações interpessoais.
O ato de falar é, sobretudo, o principal meio de comunicação entre os seres humanos. Quando você fala, seja através da voz, escrita ou por outros meios, está manifestando a sua essência, o que poderia ser entendido como “a sua verdade”. Quando você age, é como se estivesse validando as suas crenças, é uma espécie de formalização daquilo que se pensou ou expressou. A partir do momento em que as pessoas entram em um diálogo, fica implícito o que podemos chamar de “contrato de sinceridade”, pois não faz o menor sentido conversar com alguém que você tem certeza que vai te ludibriar, sendo assim, o mínimo que se espera da outra parte é que ela seja sincera. Quando as atitudes do outro apontam que não houve verdade, está configurado um padrão antiético.
O que fazer então quando esse comportamento vicioso é recorrente nas próprias ações? A primeira coisa é aceitá-lo como realidade, pois nada pode ser feito quando o envolvido varre a poeira para baixo do tapete. Depois disso, é importante fazer uma autoanálise, um checklist das vezes em que suas falas e promessas não foram condizentes com as atitudes. É importante enumerar e escrever no papel exemplos das vezes em que esse comportamento aconteceu. Feito isso, deve-se escrever ao lado os motivos que o fizeram agir de maneira dissonante da que dizia. Depois, é comum descobrir dezenas de outros defeitos, mas isso não vem ao caso agora. Uma vez descoberto esses motivos, é necessário cavar mais fundo; depois disso escreva o que te fez ter essas ações e continue fazendo isso até chegar à fonte primária, exatamente na raiz do problema. Lá, você vai se deparar com situações que talvez te faça mudar de perspectivas e objetivos de vida.
Quando o que está em pauta é uma crise comportamental e emocional como essa, é possível que o envolvido tenha dificuldade de fazer uma autoanálise e resolver sozinho o problema. Nesse caso, é mais do que aconselhável buscar profissionais que possam ajudar. Não há nenhum problema em admitir que não consiga lidar com uma dificuldade, o problema é observar que ela existe e não fazer absolutamente nada para mudar isso.
Enxergar cada dia como uma oportunidade de se tornar um ser humano melhor é uma virtude. Ter vergonha das suas fraquezas não é uma qualidade, mas sim uma fraqueza ainda pior, pois além de não te ajudar em nada, te impede de encarar as outras vulnerabilidades de frente e agir. Reconheça seus pontos a desenvolver e busque neutralizá-los, ainda que para isso seja necessário pedir ajuda. Com o tempo, verá que o maior e melhor investimento que pode fazer é buscar todos os dias se tornar a melhor versão de si mesmo.
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