Dois pesos e duas medidas. Será?

         Não é nenhuma novidade que o homo sapiens é uma das espécies mais errantes do planeta, senão a maior. Cometer atrocidades é, lamentavelmente, algo absolutamente natural, embora não seja normal. Mesmo depois de milhares de anos  de evolução da espécie, ainda que haja de maneira sólida e difundida os conceitos de respeito, muitos ainda não absorveram seu significado na prática, o que faz com que ainda pensemos: o que é de fato respeitar alguém? Há algum motivo ou exceção para que esse conceito seja deixado de lado?

Respeito é entender que as pessoas, mesmo com algumas similaridades, são desiguais; seja no quesito intelectual, material, espiritual, percepções de mundo e aparência física, e que isso não torna ninguém melhor ou pior que o outro, apenas diferente. O respeito também tem a ver com a compreensão das limitações de cada um, ou seja, deve-se tratar as pessoas sem subjuga-las como inferiores, mas os métodos de comunicação devem ser adaptados conforme a realidade de cada um, sem exigir que o outro tenha a mesma maturidade para determinados assuntos, afinal, nunca somos maduros em tudo, há alguns temas em que somos mais evoluídos que o outro e vice versa.

Se o respeito é algo tão bom, já que promove o bom convívio entre a espécie, por que muitos não o utilizam como uma ferramenta de relacionamento interpessoal?

A exceção no que tange o respeito está atrelada a fazer o que é justo. A justiça permite usar a falta de respeito (de maneira moderada) a fim de reparar um dano que uma pessoa causou à outra. Ocorre que definir o que é ou não justo é algo muito extenso e delicado, que varia conforme a moral e à cultura vigente do local em que ela está inserida. Por ter um conceito muito subjetivo, ela dá margem para inúmeras interpretações, por isso, seu resultado nem sempre promove uma sensação de equilíbrio.

Uma maneira paliativa para tornar o que se chama de justiça algo equilibrado é recorrer à ética. Esta é norteada por princípios atemporais que visam proporcionar um código de conduta que adota o respeito à liberdade como um dos pilares básicos. É muito comum observar atitudes sendo tomadas em nome de uma pseudo justiça sem invocar a ética, o que torna essa  “atitude justa” parcial e desprovida de equilíbrio. Nossos tribunais estatais e os demais “julgadores anônimos” da nossa vida cotidiana são experts nisso.

Nesse contexto, é possível observar os conceitos de justiça e vingança se entrelaçarem, fazendo com que aquele que foi incumbido de julgar (ou que o fez por conta própria) passeie pelas duas frentes conforme seu bel prazer. O problema é que existe um abismo gigante que separa quem é justo dos que são vingativos.

A vingança não objetiva olhar os dois lados em busca de um consenso, mas sim devolver na mesma moeda algum mal que foi causado, mas, na maioria das vezes, uma pessoa só tem a sensação de que foi vingada se quem lhe causou o mal sofrer mais intensamente, sem observar os pormenores e o contexto que ocasionaram tal ato. 

Vingar-se de alguém que nos causou algum dano é, por vezes, tentador, mas essa atitude é mesmo necessária? Ela realmente é capaz de reparar algum mal que foi feito ou trata-se apenas de uma ação que visa atender a um capricho do ego ferido? Acredito que essas perguntas devem ser feitas por todos que buscam vingança acima da justiça.

Que não sejamos hipócritas em negar os sentimentos ruins em relação a quem nos causou algum mal, que apenas haja o entendimento de que é mais lúcido agir com sabedoria. Não é nenhuma novidade de que vingança é abundante em sentimentos e escassa em razão, por isso, ter cautela e sensatez é sempre necessário. Por mais que às vezes justiça e vingança tenham uma aparência similar, é preciso entender que ambas possuem finalidades distintas. Quem busca fazer o que é justo age com a razão, ao passo de aqueles que buscam vingança são movidos exclusivamente pela emoção.

Texto autoral de Maycon de Souza


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