Uma visitante indesejada

Toda virada de ano é a mesma coisa, as pessoas se contagiam pelo clima de festa, fazem uma retrospectiva de como foi o ano que passou e fazem dezenas de planos para o novo ciclo vindouro. Não há nenhum problema nisso, apesar de ser algo brega e clichê. Concordo que é importante ter ciência de todas as experiências vividas, sejam elas boas ou ruins, para que seja possível aprimorar as ações que serão executadas. Inclusive, a existência de planejamento de médio e longo prazo é algo sadio para que seja possível a realização dos sonhos e objetivos, a questão é que isso, se levado no piloto automático ou como uma mera tendência exclusiva de virada de ano, não contribui em nada na obtenção daquilo que se almeja. Essa situação chama à atenção para um questionamento interessante: você está de fato vivendo ou apenas acumulando anos de vida?

É natural que o ser humano viva grande parte de sua vida em busca de uma felicidade imaginária, uma alegoria criada em sua mente como se fosse algo materialmente tangível e acabado. É exatamente por esse pensamento que ele é, por vezes, vítima de frustrações angustiantes que aparentam não ter fim. Muitos acreditam que o resultado é mais importante do que o processo, por isso, utilizam quaisquer meios para obtenção de um determinado fim, sem ao menos se importar com o que pode acontecer no meio do caminho. O problema é que se esquecem de que na vida não existe almoço grátis, e mais cedo ou mais tarde a conta chega, quer queiramos ou não. A desvantagem é que nem sempre o preço a pagar é justo.

A cegueira ocasionada pela ânsia e a compulsão pelo resultado faz as pessoas ativarem o piloto automático, vivendo os momentos que supostamente precedem o resultado de modo indiferente, sem dar o devido valor que o momento presente merece, com isso, a grande vilã moderna - popularmente conhecida como ansiedade - faz a festa, sem qualquer pudor ou limite. Quando essa vilã se apodera por completo, dificilmente a pessoa consegue atingir aquilo que planejou. Sim, eu sei que a ansiedade chega sem avisar e muito menos pede autorização. Concordo que é muito difícil exercer controle sobre ela, por isso sou a favor de agir preventivamente para evitar dar de cara com essa visitante indesejável, pois como diz um antigo provérbio oriental: “a melhor guerra é aquela que se evitou”. Então, para evitar um conflito desnecessário contra a ansiedade é preciso sair do piloto automático e viver o presente em sua totalidade.

Teorizar as coisas às vezes é fácil, principalmente quando alguém está falando de uma situação específica que nunca viveu, devido a isso, é necessário ter o pé atrás diante de qualquer “receita de bolo” que lhe for apresentada.  O máximo que uma pessoa pode fazer ao se deparar com uma teoria é considerá-la uma hipótese, não uma verdade absoluta. Com o que proponho neste texto não poderia ser diferente, ainda mais pelo tema tão complexo e importante como esse que está em voga.

Voltando ao assunto, costumo dizer que de todos os momentos existentes da linha do tempo, só possuímos o presente. O óbvio às vezes precisa ser dito, e nesse contexto mais do que nunca isso se faz necessário. Pare para pensar em todos os seus problemas e aposto que verá que a maioria deles (senão todos) estão atrelados ao passado ou em uma situação futura. Feito isso, me responda uma coisa: faz sentido ocupar sua mente e ter um desgaste emocional gigante por coisas que não estão sob o seu controle?

A ansiedade te impede de viver o agora, pois anula a sua consciência e a percepção das coisas ao seu redor. Embora não seja possível eliminá-la em definitivo, é possível controlá-la de modo que ela não gere grandes incômodos em sua vida. Um exercício muito interessante que muitos fazem com o objetivo de contê-la é a meditação. Através dela é possível alcançar um estado de clareza mental e emocional que te permite manter a calma e a enxergar as coisas tal como elas são. Existem vários aplicativos para smartphone e vídeos no YouTube para quem tem interesse em aprender essa prática. 

Ter planos e metas é necessário para se mover, mas mais importante que isso é ter o entendimento de que todos estamos sujeitos ao fracasso e ao erro, por isso, se apegar ao suposto resultado e ignorar aquilo que se vive no presente é um falha gravíssima. É importante aproveitar o presente e dar um passo de cada vez, pois do contrário, estará jogando fora aquilo que se tem de mais precioso: o seu tempo.

Texto autoral de Maycon de Souza


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