Solução ou problema? Você quem escolhe.


             A terceirização da culpa dos próprios erros e problemas é uma prática muito comum exercida pelo ser humano. Desde pequenos somos treinados para sermos vítimas das situações que se apresentam, não para sermos protagonistas. Esse comportamento é lamentavelmente cultural, e apesar de ter sido implantado desde que nascemos, é replicado em todas as fases da vida; em algumas pessoas com maior intensidade, em outras nem tanto. 

            Independente do grau de intensidade que esse comportamento atinge, ele parece ser um fardo que cada indivíduo foi destinado a carregar. Apesar de ser algo impregnado na essência humana, há aqueles que não possuem reação diante dos fatos e deixa essas dependências dominarem o seu “Eu”, de modo que passa a se tornar um servo dessa prática danosa.  Diante disso, é possível observar uma espécie de adoecimento coletivo que cada vez mais ganha adeptos e dá margem para que as mais diversas patologias de cunho psicológico se apresentem e tomem posse dos que são acometidos por esse comportamento vicioso. Será que há algo capaz de intervir nessa bola de neve do campo das emoções? 

            Concordo que há muitas pessoas que já nascem inseridas em circunstâncias problemáticas e limitadoras, ao passo que outras nem tanto. O problema é que muitos abaixam a cabeça ao invés de canalizar sua energia, capacidade cognitiva e emoções em soluções. A atenção dessas pessoas é voltada exclusivamente aos problemas, e com isso, transferem a responsabilidade de resolvê-los para outro indivíduo ou grupo de pessoas. Essa não é uma atitude que vai resolver a situação, muito pelo contrário, ela tende a acumular e a piorar cada vez mais.

            Quando estamos de frente para um problema, só há dois caminhos possíveis: encará-lo e assumir a responsabilidade em resolvê-lo ou buscar culpados, considerando-se uma vítima daquela situação. Independentemente de qual seja o caminho escolhido, o esforço é o mesmo, a diferença está somente no resultado de cada escolha. 

            A partir do momento em que uma pessoa adota o comportamento de vítima, é como se estivesse dizendo a si mesma: “Essa situação ruim não é problema meu. Não posso fazer nada para resolver isso”. Em contrapartida, aquele que toma para si a autorresponsabilidade dos fatos é como se dissesse: “O problema existe, isso é uma realidade. É impossível voltar ao passado e evitá-lo. Cabe a mim levantar alternativas para resolvê-lo e criar estratégias para evitar que ele se repita no futuro”. 

            O que muitos têm dificuldade de entender é que o mundo não é um parque de diversões, ele é um lugar frio, competitivo e povoado por seres complexos que, apesar de viverem em bando, querem se destacar e serem melhores em tudo, tanto em relação aos seus semelhantes como em relação aos outros animais.  O ser humano é, inclusive, dotado de dualidade; ou seja, ao contrário do que alguns pensam, não existe um grupo de pessoas que é bom e outro que é mal, a realidade é que todos (sem exceção) possuem o bem e o mal enraizados dentro de si em igual proporção.  A diferença está somente no lado que cada pessoa permite ser evidenciado em seu comportamento no meio social em que está inserido.  Partindo dessa premissa, o sentimento de solidariedade é relativo. Alguns até podem ajudar pessoas que estão em condições inferiores, desde que essa ajuda não torne o outro igual ou melhor que aquele que supostamente estendeu as mãos para ajudar. Sendo assim, você acha que terceiros vão assumir a culpa e a responsabilidade de um problema pertencente a um indivíduo que não assumiu as rédeas da situação? 

            Adotar o comportamento de vítima é algo que não requer esforço, pois nomear um culpado é muito mais fácil do que buscar soluções e colocá-las em prática. Geralmente aquele que frequentemente se diz vítima, muitas vezes tem consciência da sua parte responsiva no problema, no entanto, se torna cego devido ao padrão comportamental vitimista que lhe é ensinado desde criança. A partir desse momento, é comum que os envolvidos se deixem levar pelo “piloto automático”, ignorando totalmente as possibilidades de resolver os problemas que inevitavelmente surgem. 

            De modo algum insinuo que aqueles que são vítimas de algum crime não devam buscar justiça por um ato danoso cometido contra si, pois é óbvio que esse é um fato que deve sim ser reportado às autoridades para que as providências legais sejam tomadas. O que realmente chamo à atenção são as atitudes usadas como desculpas para não fazer nada frente a um problema. 

            Muitos daqueles que buscam culpados para seus problemas abrem mão da própria liberdade e autonomia, tudo isso em nome da falácia da "igualdade entre as pessoas". Esta é uma utopia que muitos romantizam e insistem que deve ser buscada a qualquer custo como justificativa para resolver seus  problemas individuais. Esse pseudo “ideal” já foi diversas vezes buscado (com insucesso) ao longo da história, utilizando o Estado como um instrumento para forçar as pessoas abrirem mão da sua individualidade e aderirem ao ideal coletivo que o líder máximo estatal deseja que seja seguido. Exemplos dessas frustradas tentativas ocasionaram as maiores catástrofes humanitárias, como pode ser observados através dos regimes totalitários do século XX. 

            Muitas pessoas se esquecem de que o ser humano é diferente um do outro, e cada pessoa é um oceano de águas desconhecidas. Por isso, aceitar que cada um tem objetivos, metas, preferências e propósitos diferentes um dos outros é essencial para pacificidade no convívio amistoso da espécie. 

            Na vida, quando resolvemos um problema aparece outro. Eles fazem parte do pacote existencial, e por isso é impossível viver isento deles. Compreendê-los como essenciais para o aprendizado e desenvolvimento pessoal é um importante passo para resolvê-lo. Quanto mais fugimos, maiores e mais intensos eles se tornam, por isso, qualquer tentativa de maquiar a existência deles é um convite à frustração. Se responsabilize pela sua própria vida, pois se você não fizer isso, ninguém mais fará por você. 

Texto autoral de Maycon de Souza

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