Você vive ou sobrevive?

Ao nascer, cada pessoa se depara com uma extensa jornada pela frente, o que não significa necessariamente que todos terão a mesma quantidade e qualidade de vida, afinal, alguns vão partir antes dos outros e poucos terão o privilégio da longevidade com gozo de saúde. De modo geral, as jornadas são parecidas, embora os caminhos sejam diferentes. O que é comum a todos é o fato de terem a oportunidade de aprender (de modo empírico ou não) o funcionamento do próprio corpo, do intelecto e do espírito (não estou falando de religião). Vale ressaltar que o desenvolvimento dessas três frentes deve ser contínuo, pois não existe uma linha de chegada, mas sim um processo evolutivo. Após esse entendimento, será que ainda falta algo a ser descoberto para que a vida se torne completa?

Não é uma unanimidade a crença de que ela tem ou não um sentido. Alguns acreditam que nasceram com uma vocação e que devem exercê-la até o último dia de suas vidas, para que assim o seu propósito mundano se cumpra. Outros acreditam que não há um objetivo predefinido e que a vida não tem um sentido a priori, mas sim aquele que cada um dá à sua existência, podendo este ser mudado ao longo do tempo, quantas vezes os envolvidos julgarem necessário. 

Independentemente de qual seja a sua concepção, o fato é que ter um ideal faz com que a vida tenha mais cor e que o ato de viver não seja mecânico e vazio. É inegável que vivemos em um tempo em que a ansiedade e outras patologias psíquicas cada vez mais se tornam populares e abrangentes, como um vírus que se espalha em uma velocidade avassaladora, sem discriminar as vítimas por quaisquer que sejam suas características. Os problemas que a humanidade hoje possui são muito diferentes dos que as gerações de meados do século XX enfrentavam. Antigamente, era comum a luta pela sobrevivência do corpo físico, hoje, a batalha é pela sobrevivência da saúde mental.

A ciência sugere que grande parte dos problemas que afetam nosso organismo iniciam-se por algo que não vai bem na nossa mente. Partindo desse fato, é comum que as atenções se voltem ao bem estar psicológico, pois de nada adianta cuidar somente do aspecto físico, uma vez que ambos estão intimamente interligados.

Vivemos na era da informação, o que não significa que estamos no ague do conhecimento. É comum que as pessoas confundam os dois conceitos, todavia, ter acesso a um não é garantia de ter o outro. O conhecimento, por sua vez, representa um entendimento aprofundado da informação, visto por um olhar crítico e com aplicabilidade no dia a dia. O excesso de informações a que somos submetidos é um convite à dispersão, à procrastinação e à ausência de interesse em se aprofundar em algum assunto. Todos esses pormenores contribuem bastante para que as pessoas não tenham um propósito previamente definido.

Há uma probabilidade gigante de que as pessoas que não possuem um propósito existencial vivam de modo apático e deprimido. Essa é uma situação que não é difícil de ser observada, uma vez que está ligada à falta de conhecimento de si mesmo, pois quando não há autoconhecimento, é impossível saber o que te move, o que de fato faz seus olhos brilharem e sua alma ser incendiada por uma vontade de agir. Por essas e milhares de outros motivos é que conhecer a si próprio nunca sai de moda, por mais que pareça clichê dizer isso.

Uma vez em que há a descoberta do seu propósito existencial, é importante ter atenção a outro detalhe de suma importância: não se tornar escravo dele. De nada adianta fazer essa descoberta revolucionária se ao invés de obter ganhos, ter perdas consideráveis de salubridade mental. Muitas pessoas não sabem dosar o nível de energia que gastam em prol do seu propósito e acabam se tornando capacho daquilo que deveria lhes servir. É importante dar o seu melhor, mas sem abrir mão de outras áreas que também são responsáveis pelo seu bem-estar, como por exemplo, seus sentimentos, lazer, trabalho e relações sociais. O propósito deve ser um jogador habilidoso em meio aos outros do seu time, jamais a equipe inteira.

Viver é diferente de sobreviver. Aquele que de fato vive, aproveita o próprio tempo e os momentos (sejam eles bons ou ruins) de forma calorosa e apaixonada, tudo isso pelo simples fato de estar respirando. Os que desejam somente os prazeres instantâneos e não sabem o que fazer com a própria vida quando não os tem, estão apenas sobrevivendo.  Em resumo, viver é compreender a vida e amá-la, mesmo com as suas inúmeras imperfeições. As derrotas, decepções, tristeza, dor e solidão são componentes intrínsecos ao ato de viver. Se você tenta fugir deles desesperadamente, você tem medo da vida, sendo assim, você não vive, apenas sobrevive.

Texto autoral de Maycon de Souza

Comentários

  1. Queremos fugir das decepções e frustrações tanto quanto algumas pessoas buscam a vida perfeita (irreal) que demonstram em redes sociais... As duas situações são impossíveis de se alcançar.

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