A busca por uma mente esclarecida: o conceito de esclarecimento, segundo Kant
Quem observa a civilização tal como é hoje - relativamente pacífica e detentora de conhecimentos diversos - pode até cair na tentação de acreditar que as coisas sempre foram assim, porém, todos os avanços no campo do pensamento se deram por meio de um longo processo de estudo e análise crítica sobre a psiquê humana.
A filosofia foi (e ainda é) um grande divisor de águas ao longo desse processo, o que faz com que ela seja carinhosamente chamada por muitos de a “mãe de todas as ciências”. Vários filósofos foram responsáveis por fazer jus a esse título, sendo que um deles marcou o período moderno da filosofia de uma maneira muito expressiva e contundente: Immanuel Kant.
O legado deixado por Kant é conhecido por obras densas e complexas, o que requer muita dedicação e estudo para entender o seu pensamento. Entre essas obras, o texto intitulado como “Esclarecimento” chama à atenção por sua profundidade e por trazer conceitos que incentivam o leitor a sair da zona de conforto e pensar sobre como está conduzindo sua vida, tanto na parte intelectual como na comportamental.
Para Kant, uma pessoa esclarecida é aquela que renuncia à menoridade para se tornar alguém capaz de pensar a partir de suas próprias análises e conclusões, aplicando o conhecimento adquirido em torno daquilo que lhe cerca. Vale ressaltar que nesse contexto, “menoridade” não tem nada a ver com idade, mas sim com maturidade intelectual e cognitiva. Kant é categórico ao afirmar que quem está preso na menoridade é covarde, pois está sempre em busca de ídolos e tutores para poder agir e pensar.
Na teoria, embora a sociedade tenha um enorme potencial para sair da menoridade, na prática esse processo é algo difícil de ser atingido. O cérebro humano, apesar de ser uma máquina fenomenal, busca estar o tempo todo em situação de conforto. Por isso, quando sentimos fome, frio e medo, ele sempre nos incentiva a sair dessa condição e voltar ao estado inerte e confortável. O mesmo incômodo pode ser verificado quando somos obrigados a sair de uma rotina da qual estamos confortavelmente acostumados. Tendo em vista essa analogia, sair da menoridade requer uma forte disposição mental para lidar com o desconforto ocasionado pela coragem de pensar por si mesmo.
É tentador se manter na menoridade, pois nela nenhum esforço é preciso. Além do mais, quando você renuncia ao ato de pensar por conta própria, você automaticamente terceiriza a responsabilidade da sua vida para outras pessoas. Isso é algo muito perigoso, pois nem sempre estas estão interessadas no seu bem-estar, mas sim no delas mesmas.
O preço a ser pago por uma sociedade que não é esclarecida é altíssimo. Ao longo da história, podemos observar o quão nocivo isso foi para nossa espécie, como por exemplo as atrocidades causadas pelo fanatismo religioso, as guerras causadas pelo apoio das pessoas a ditadores sanguinários, a escravização de povos devido a crença de que eram raças inferiores, dentre outras monstruosidades.
Kant considerava que a humanidade ainda não havia conseguido atingir o esclarecimento, mas que estava caminhando em direção a ele. Apesar dessa visão relativamente otimista, ele acreditava que esse processo não aconteceria da noite para o dia, seria necessário a sociedade passar por diversas transformações no campo das ideias a ponto de considerar algo gravíssimo toda falta de criticidade e bom senso. De fato, Kant estava certo, pois até hoje a sociedade permanece em estado de esclarecimento. Embora tenha ocorrido vários avanços desde a época em que ele viveu, ainda há um número assustador de pessoas imersas na menoridade.
Embora as respostas sejam uma espécie de termômetro no momento da análise, não são elas que movem o mundo, mas sim as perguntas. Diante disso, resta-nos os seguintes questionamentos: será que um dia será possível vivermos em uma sociedade realmente esclarecida? Se sim, haverá algum efeito colateral após isso se concretizar? As pessoas serão capazes de, no ápice do esclarecimento, manter o equilíbrio entre razão e emoção? O que acontecerá caso a sociedade (nessa altura do campeonato) abandone o caminho do esclarecimento? Independentemente do que o futuro nos reserva, cabe a nós aplicarmos o lema kantiano “Sapere aude” (ouse saber) no dia a dia. Somente através do uso do conhecimento é que estaremos aptos a progredir enquanto pessoas e consequentemente contribuir para a melhoria do todo.
Abaixo, o vídeo que gravei para o YouTube que complementa esse texto:
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